Texto

Dizem que as histórias só acontecem com as pessoas que sabem relatá-las.

Provavelmente deve se tratar de mais uma daquelas afirmações –com pretensão a ser universal e eterna– que infestam nosso miserável cotidiano real e o também rico universo paralelo, digital e surreal (onde todos somos lindos e perfeitos).
Filosofadas à parte, a alegação não deixa de fazer sentido.
Sei de um cara que conhece mais de mil piadas e que não sabe contar nenhuma, e sou amigo de outro que só conhece no máximo umas dez: sempre que as conta, você ri até mijar nas calças, como se as ouvisse pela primeira vez em sua vida.

Modéstia à parte, acho que também tenho uma história a narrar.
Tudo começa com um livro que lancei este ano, intitulado Maldito Levrero!. Trata-se de quatro histórias, uma dentro da outra. Começa com uma reunião, entre uma ambiciosa editora de livros e um exímio e criativo revisor de textos, na qual eles combinam criar um manuscrito inédito de um autor já falecido. A segunda história é a própria obra plagiada, na qual são apresentados Mario Levrero, importante autor uruguaio, e Jorge Varlotta, uma espécie de clone intelectual de segunda mão. Ele, Jorge, se apaixona inicialmente pela obra de Mario, porém, à medida em que vai devorando sua obra, passa a odiá-lo. Resolve, então, vingar-se de uma suposta conspiração contra sua pessoa e se põe a escrever uma história (a terceira), fazendo-se passar pelo outro. Na última história, explicam-se as três primeiras por meio da figura de um advogado que acompanhou todo o processo (desenrolar da trama) e está metido em um processo, movido pela família do falecido autor.

Dois dias antes de lançar oficialmente Maldito Levrero! em Colonia del Sacramento, Uruguai, fui surpreendido pela notícia de que a família de Mario Levrero estava me procurando há alguns meses. Souberam do meu livro na Feira de Buenos Aires (é preciso explicar que escrevi o livro em português e que depois ele foi traduzido para o espanhol), evento do meio editorial do qual participei, buscando achar uma editora uruguaia ou argentina que se interessasse. Liguei a viúva dele (consegui o telefone com o sobrinho de uma amiga dela) e ouvi 10 minutos de lamúrias.

No dia do lançamento, lá estava ela e fui cumprimentá-la; mais 10 minutos de lamúrias (as mesmas, por sinal). Depois de conversar com o público e autografar alguns exemplares, a última sessão reclamação (eu já conseguia reproduzir as frases na minha cabeça antes de ela pronunciá-las). Quando ela disse no final que a família a comparava a Maria Kodama, viúva de Borges, quase que a corrigi: você está mias para Yoko Ono do que a própria Yoko Ono.
Onde quero chegar com esta história toda? Basicamente comentar o vivo sentimento de que as histórias tem diversos lados, distintos pontos de vista. E que podem ser contadas de maneira distintas, dependendo de quem as está narrando ou lendo.

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